O BÓLIDE VERMELHO
O carro deslizava velozmente pela estrada deserta àquela hora da noite. Apesar da velocidade sentia-se seguro. A máquina excedia todas as expectativas. Tivera um certo receio ao adquiri-lo, visto aquela marca ser desconhecida no país, mas fora uma aflição de poucas horas. Agora todo o seu ser, todo o seu ego, vibrava com o deslumbramento que provocava na via pública. O bólide vermelho tinha sido a estrela da noite no parque de estacionamento da discoteca onde tinha ido com a mulher. Um prazer colossal apoderou-se dele enquanto o carro abria caminho por entre as filas de arvores que corriam na névoa da noite. Sentia-se mais quente e cheio, mais forte e poderoso, e um irresistível sorriso, de pura satisfação, dançava-lhe nos lábios entreabertos. A vida era bela! Bela e fácil, sem curvas nem veredas apertadas. A vida era uma imensa e larga auto-estrada que lhe pertencia e onde ele voava.
Ao lado, suave e carinhosamente encostada nele, a linda mulher dormitava, por certo fatigada de tanto passos de dança. Mas ele, naquele momento, não queria saber de mais nada. Nunca sonhara que se pudesse atingir um grau de domínio e de êxtase como aquele que agora sentia, ao volante do seu novo carro. Nem quando fizera amor com a linda mulher agora adormecida. Vindo das profundezas, um som estranho, um “clique” prolongado, invadiu-lhe o subconsciente. Fez um esforço para afastar o intruso do caminho. Contudo, o som não se afastou. Pelo contrário, aumentou de intensidade. Era agora uma sucessão ritmada e frenética de “cliques” metálicos que lhe penetravam e enchiam os ouvidos. Em vão. Começou a entrar em pânico. Aquela noite não podia acabar assim. Ainda faltavam alguns quilómetros para chegar a casa. De repente, numa explosão com epicentro dentro da própria cabeça, tudo rebentou em mil estilhaços.
Abriu os olhos. Estava escuro. Uma luz ténue vislumbrava-se, ao alcance da mão, e um ruído execrável perturbava o silêncio do quarto. Estendeu o braço e, maquinalmente, desligou o despertador.
Virou-se de barriga para baixo e tentou ainda, nem que fosse por um momento breve, sentar-se de novo ao volante do carro que, poucos segundos antes, conduzia. Implacável, a realidade, feita de um tic-tac surdo de relógio, obrigou-o a olhar as horas. Suspirou. Levantou-se, pesaroso e cansado, e rumou para a casa de banho.
*
Ao fechar a porta do prédio procurou, com o olhar, o lugar onde deixara o carro estacionado de véspera. Por entre a névoa difusa que penetrava o estremunhado bairro, naquela manhã, lá descobriu o velho R5. Indiferente e prosaico, aguardava o passeio matinal. Mal disfarçados pelas gotas de geada que caíra durante a noite, adivinhavam-se, aqui e ali, escuros pontos de ferrugem. O pára-choques estalado e a amolgadela na traseira tinham o ar doído e cansado de duas velhas feridas. Abriu a porta com um safanão seco. Mal se sentou ao volante, logo uma sensação de desconforto lhe invadiu o corpo. Que frio e humidade no interior do veículo!... Como se não bastasse, aquele maldito banco, deformado pelo tempo e pelo uso, piorava de dia para dia. Mecanicamente introduziu e fez girar a chave de ignição. Para não variar, o carro só pegou à terceira. Abriu até meio o vidro da porta. Áspero, o ar da manhã eriçou-lhe o rosto e ajudou-o a acordar, de vez, para a rotineira viagem a caminho do trabalho.
O deslizar solitário do carro produzia um som estranho que cortava o adormecido silêncio das ruas ainda desertas. Mas, rapidamente, como assaltantes ágeis, outros carros desembocavam da direita e da esquerda e, pouco depois, era já uma fila compacta que engrossava mais e mais. As ruas enchiam-se de gente apressada, expelida das portas dos prédios altos e fechados. Gente que apertava os braços de encontro aos casacos grossos de inverno e corria, em passos miúdos e travados, para as paragens de transportes públicos. Quando alcançou o centro da vila, núcleos de pequenas multidões, ordenadas em comprimidas bichas, aguardavam, com impaciência mal disfarçada, os autocarros com número e destino marcado nas placas das paragens. Eram verdadeiros pelotões - de cujo exército ele também fazia parte - que todos os dias tomavam de assalto a capital, para mais um dia de trabalho.
Começou a chuviscar. Comprimido no lento comboio de carros que entretanto se formara, sem fuga nem opção possível, farrapos de pensamentos perpassavam-lhe pelo cérebro com a mesma insistência pegajosa, desordenada e miúda, da chuva que caía. Já passava agora das sete da manhã. Em casa, dentro em pouco, também o despertador daria a Vera o sinal de partida para mais um dia. Pobre Vera! Ela, que se tinha deitado tão tarde na noite anterior, atarefada com a roupa por engomar e a arrumação da cozinha... E logo ela, que andava tão cansada, com tanta necessidade de dormir... Um sentimento de piedade invadiu-o, tão doloroso quanto impotente. Revia o sacrifício de Vera para se levantar, a batalha surda entre o galgar dos ponteiros do relógio, entrevistos pelos olhos meio adormecidos, e o apelativo e quente aconchego da cama. E depois, para além de se aprontar, Vera teria de acordar o filho, Gonçalo. E este, como a maior parte dos miúdos, fazia as fitas do costume. Estava sempre cheio de sono e, para o fazer sair da cama, era preciso uma grua. Depois era o problema do vestir. Se Gonçalo ficasse sozinho acabaria no dia seguinte. Já sabia, Vera optava, irremediavelmente, por ajudar a abotoar os botões da camisa e os atacadores das botas, compor a camisola e apertar-lhe o cinto. Irremediavelmente, pois Gonçalo contava sempre com aquela “marmelada” matinal e Vera, em contrapartida, ia atrasar-se sem pena nem agravo. Claro, se fosse com ele a música seria outra!..., pensou, a sentir uma pontinha de orgulho, quase vaidade. Mas ele era pai, era homem, e Vera era como a maior parte das mães, um pouco fracas com os caprichos dos filhos. Claro que a mulher, se estivesse ali, a escutar-lhe os pensamentos, atalharia logo com aquela do machismo e as acusações do costume. Até parece que a estava a ouvir, que ele tinha a mania da superioridade masculina e uma maneira retrógrada de ver as coisas.
Tretas!... Seria?!... Ou existiria alguma ponta de verdade nas acusações de Vera? Não, ele sabia era impor-se. Impôr a sua masculina autoridade de pai. Com ele, o filho não abusava como fazia com a mãe. Essa é que era a verdade. E, para melhor reforçar a certeza dessa verdade – que lhe agradava mais que as dúvidas... -, pôs-se a pensar que não havia um único dia, lá em casa, sem drama ao pequeno almoço. Se não era o leite que estava quente era o pão que era duro. Revia os olhares de Vera para o relógio, cada vez mais insistentes e angustiados, os minutos mais rápidos, o miúdo mais mole e atrasado, os nervos mais comprimidos... Come. Despacha-te. Olha a carrinha que está a chegar. E, dentro em pouco, ameaça feita realidade, ouvia-se um apitar demorado. Era a carrinha do colégio, apressada e insistente. Já viu o que era se ficássemos cinco minutos à porta de cada miúdo à espera?!... Claro, claro, ela compreendia. Despacha-te. Bebe o leite. Frenética, em fracções de segundo, Vera ajuda Gonçalo a vestir o “kispo” e a pôr a mochila à costas e dita o sermão habitual: Porta-te bem. Está com atenção nas aulas. Vê se não te sujas. Cuidado para não caíres nem te magoares. Mas Gonçalo ouviria o recado nas escadas, que desceria a dois e três degraus, na ânsia de chegar à carrinha e aí contar a última novidade que aprendera ou mostrar a mais recente construção que tinha feito com os “legos”. Mas já Vera, no quarto do filho, alternava a sumária arrumação com resmungadelas surdas pois, como de costume, os cobertores semelhavam enrolados chouriços, o pijama jogava às escondidas com as almofadas espalhadas pelo chão e o procurado boné encontrava-se, afinal, pendurado no candeeiro da secretária. No meio desta correria, o cérebro de Vera procura, no banco de dados das congeladas existências alimentares da arca frigorifica, o que pode tirar para ir descongelando para a ementa do jantar. A acelerar, Vera mal tem tempo para enfiar um copo de leite pela garganta abaixo e trincar uma côdea de pão antes de fechar a porta do apartamento. A entravarem-lhe os passos, a pesarem-lhe nos pensamentos, as sombras negras das habituais dúvidas: O gás estará fechado? As torneiras não terão ficado a pingar? As janelas abertas ou fechadas? Já no elevador olha o relógio, falta meio minuto se o autocarro não vier atrasado, engole o último bocado de pão, mira-se no espelho, que alegria e que tristeza haver um espelho no elevador, aproveita-se para ajeitar o cabelo, retoca-se, com a ponta do dedo, o baton dos lábios, mas dá-se conta – e ainda o dia mal começou - como estamos com olheiras...
As mulheres são umas complicadas, não percebem que o espelho do elevador tem outras funções?!... E este trânsito que não anda mesmo... Ainda se o rádio do carro funcionasse!... Também Vera está agora à espera mas na paragem do autocarro, encolhida entre o frio e a chuva que lhe fustiga as pernas, uma entre tantos outros que olham, nervosamente, minuto após minuto, o movimento cadenciado dos ponteiros do relógio na esperança que o autocarro seja mais rápido. A chegada deste põe fim ao suplicio mas dá início a outra tragédia. Como é habitual, o autocarro vem a abarrotar. Por entre uns empurrões e uns pedidos de desculpa, Vera lá consegue um lugar. De pé, claro, pois lugares sentados pertencem ao passado. E assim, até chegar ao trabalho - onde passará sete compridas horas, excluindo a do almoço -, a equilibrar-se no meio daquela amálgama apertada de gente, por entre umas pisadelas, uns distraídos pedidos de desculpa, umas contorções de coluna por força de uma ou outra travagem súbita, Vera tem cerca de uma hora para meditar nos prazeres da vida moderna.
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em janeiro 7, 2004 09:01 PMVenha o resto; estou a gostar.
Um abração do
Zecatelhado
Isso não será por influência de um anúncio que
anda pelas televisões que exibe um Ferrari vermelho? Também aguardo pelo resto do conto.
Amanhã há mais....Oh Raul isto é de 1989. Mas bólides vermelhos já os há à longos anos, também os havia ali para os lados da Luz, agora anda é mais devagar e com falta de côr.
Afixado por: vmar em janeiro 8, 2004 12:42 AM